Como proteger os quadris na paralisia cerebral?




Crianças com paralisia cerebral espástica (hipertonia muscular) e envolvimento corporal completo (tetraparesia), frequentemente desenvolvem patologia nos quadris.

São crianças que apresentam importante comprometimento motor, atraso no desenvolvimento das habilidades motoras, tem pouca sustentação da cabeça e tronco, geralmente não caminham, sendo cadeirantes. Este cenário constitui o grupo de crianças de risco para doença dos quadris.

A história natural dos quadris não tratados revela que, devido as forças musculares deformantes (músculos hipertônicos), os quadris tendem a perder a sua relação anatômica normal, ou seja, a cabeça femoral perde a sua cobertura e, com isso, os quadris passam a ser subluxados.


Não sendo reconhecido e tratado precocemente, o quadro se torna pior, evoluindo para a perda completa da cobertura da cabeça femoral, resultando no quadril luxado.

Se mesmo assim não for reconhecido e, principalmente, se não for tratado, o quadril luxado irá piorar em variado período de tempo, evoluindo para degeneração da cartilagem articular da cabeça femoral, surgimento de erosões e deformidade da cabeça femoral com perda do seu formato arredondado normal e desenvolvimento de dor de forte intensidade e de difícil controle, piorando em muito a qualidade de vida da criança.


Pelo exposto acima, fica fácil entender que esta história natural desfavorável precisa ser impedida. Para isso, é necessário o reconhecimento e tratamento preventivo, na fase inicial da patologia, onde os quadris estão subluxados, garantindo assim a congruência desta articulação.

Com esse objetivo, foi desenvolvido o programa de vigilância dos quadris das crianças com paralisia cerebral.


Durante o crescimento e desenvolvimento das crianças, os quadris são submetidos a forças musculares deformantes.


Como saber se os quadris estão em risco?


Clinicamente o quadril começa a apresentar limitação na mobilidade, principalmente na abertura para a troca de fralda.Os cuidadores observam que um dos lados abre adequadamente, enquanto o outro tem limitação, ou no caso do envolvimento bilateral, a dificuldade de abertura será de ambos os quadris.


Outro indicativo de patologia dos quadris é o surgimento de deformidade, ou seja, contratura em adução, dificultando o posicionamento em pé (ortostatismo terapêutico ou postura ereta da criança), pois adotam a postura em cruzamento das pernas, onde uma perna fica sobre a outra e, com isso, a criança tem dificuldade de ficar ereta.


Quando o quadril já está luxado, outro problema observado é o encurtamento do membro inferior e o surgimento de desnível da bacia (obliquidade pélvica) que vai dificultar o posicionamento sentado da criança na cadeira de rodas. Com o desnível da bacia, ocorrerá hiperpressão em uma das regiões glúteas, surgindo dor e incapacidade de permanecer sentado com conforto por prolongado período, prejudicando assim a qualidade de vida da criança.


Uma vez desenvolvida, a obliquidade pélvica passa a ser um fator de risco para o surgimento ou agravamento da escoliose, que irá prejudicar o equilíbrio do tronco e a postura sentada na cadeira de rodas, além de prejuízo na função respiratória.

O programa de vigilância dos quadris na paralisia cerebral foi desenvolvido com objetivo de identificar e tratar preventivamente aqueles quadris que estão evoluindo mal e, com isso, modificar a história natural citada acima. Deve ser iniciado de imediato, logo que confirmado o diagnóstico da paralisia cerebral e em todas as crianças com envolvimento corporal completo, sejam elas tetraparéticas ou diparéticas.


O programa é feito com consultas médicas ortopédicas regulares e a intervalos pré-determinados, onde os quadris passam por rigoroso exame físico e obrigatório exame de imagem.


Com a imagem, os parâmetros radiológicos de congruência articular são monitorados e a evolução ao longo do tempo é estabelecida, permitindo ao cirurgião ortopedista identificar e executar o tratamento preventivo dos quadris onde a congruência estiver sendo perdida, garantindo assim a sua saúde articular.


Trata-se de cirurgia de partes moles, pouca morbidade e com resultados satisfatórios no quesito correção da congruência articular.

Com o programa de vigilância dos quadris podemos prevenir o quadro de luxação do quadril e, assim, tratar as crianças com cirurgias de menor porte e morbidade, com alto índice de satisfação.


É fundamental permitir que todas as crianças tenham acesso ao tratamento preventivo e ao programa regular de vigilância dos quadris.

Esta é uma forma de carinho muito importante para as crianças. Não negligenciem os quadris.



Obrigado pela atenção.


Um abraço a todos!


Dr. Maurício Rangel é formado em Medicina pela Faculdade Souza Marques (1994) e médico Ortopedista Pediátrico. Trabalha atualmente em consultórios com atendimento ambulatorial e cirurgias ortopédicas pediátricas eletivas. Especialista em diversas patologias musculoesqueléticas em crianças e adolescentes e cirurgias relacionadas.

Consultório: Barra Life

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